quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Ser mãe de dois filhos e Doutoranda em Sociologia, em Portugal em 2016

Mulher, 35 anos, mãe de dois filhos (17 e 11 anos), socióloga por paixão e determinação, desde os 23 anos, Doutoranda em Sociologia desde 2015/2016.

A escolha da Sociologia aconteceu ainda durante o percurso do ensino secundário, depois de um primeiro contacto com a disciplina que era ministrada na área de Humanidades, pode-se dizer que foi amor à primeira vista. Estudar a sociedade, compreender os meandros dos seus rumos, as interações sociais, a génese do ser social e a sua complexidade plasmada em tantas particularidades e regularidades. Estava decidido o meu rumo, foi traçado um trajeto que até então se apresentava vago, sem direções específicas, apenas a noção vaga de que ingressar no ensino superior seria um passo normal e não questionado, como não foi o meu percurso escolar, apesar dos tantos e imediatos encontros com a desmotivação, e com a certeza de que o mundo lá fora era bem mais importante e entusiasmante do que a realidade que nos era apresentada dentro dos muros da escola... daquela escola que eu conhecia.
Hoje, olhando para trás é mais fácil questionar-me sobre a "minha escola", como é que ela me permitiu que durante 12 anos eu não soubesse ao certo o que é que eu estava ali a fazer, o que é que era suposto eu saber de mim, e do meu caminho através daquelas aprendizagens? Se ela não me deu sentido para aprender, como é que eu poderia saber que sentido dar ao que tinha de mostrar que tinha aprendido... tudo se resumiria à velha questão... Para quê? Não deveria esta busca de sentido para as nossas aprendizagens ser um projeto integrado na realidade escolar? 
Os anos de escola passaram-se entre as notas, os trabalhos, a atenção pedida, aquela que aprendíamos a disfarçar quando não tínhamos para oferecer... o confronto com o que éramos ou não capazes de fazer, de aprender, de mostrar que sabíamos... 
Dos professores, alguns permanecem intactos na memória, como se o tempo não tivesse passado, corroborando a extrema relevância do seu papel neste processo, uns motivando, entusiasmando, partilhando a magia da curiosidade na aprendizagem, trazendo um sorriso ténue e reconhecido quando os nomes e as aulas despontam entre alguma névoa invocada pela distância. Outros marcaram relações de atrito, conflitos armados em que se aprendeu a ser, lutando pelo que se era e pelo que tantas vezes quiseram que não fossemos de nós. Outros ainda perderam-se na viagem do tempo, não se guardam desses nem nomes, nem imagens, nem conteúdos das aulas... talvez a sua presença tivesse sido esquecida mesmo ainda antes de o ser... e com ela toda a aprendizagem que deveriam ter trazido com eles, para o que fui e sou. 
Lugar de relações... lugar de emoções, transformadas em sentimentos (que percebemos tão pouco, aprendizagem não concretizada que traz tantos problemas), de descobertas, de conquistas, de perdas, de lutas e de amizades que duram para o sempre que não chegaremos a ser... os colegas, os amigos... Como é que "fazer parte" pode fazer de facto tanta diferença no papel que passamos a desempenhar neste espaço, enquanto aprendentes. Se a fragilidade já for connosco, fica muito difícil lidar com tantas provas diárias... temos de nos tornar fortes, temos de nos tornar intocáveis. Num palco onde coexistem tantas diferenças, as relações de poder assumem as formas que todos conhecemos e reconhecemos noutros palcos e noutros contextos sociais... crianças, jovens, adultos... pessoas! É isso que somos desde a escola até aqui. E no meio de todas estas relações deverá existir um propósito comum, ou a partilha de vários propósitos... que a todos chama a estar a li, mais do que a simples lei que nos obriga, e que por isso nos inibe de pensar, de reflectir, de tomar parte, de o assumirmos em consciência... "estou aqui porque". Penso inúmeras vezes o quão diferente é a realidade da aprendizagem entre "os que querem e não podem" e "os que podem e que não sabem se querem... talvez não"... não deveríamos ter todos, afinal um fim, um objetivo último, um sentido? O que é que não temos conseguido fazer nesta matéria? 
Hoje sou mãe e em 17 anos não vejo a escola mudar, apesar de acompanhar as alterações que se vão manifestando desordenadamente, ausentes de fio condutor, ao sabor deste governo, daquele ministro, desta ideia, da sua antítese no momento imediatamente a seguir, onde as preocupações se sucedem em estudos, relatórios, pareceres de especialistas, conclusões dos diferentes atores, mas que, na sua essência não transformam este suposto lugar de aprendizagem numa etapa embebida de sentidos. Vejo-me dentro de um sistema com o qual continuo a não encontrar eco, correspondência de sentidos, um sistema gasto, vazio, que apesar de saber que está na hora de mudar, ainda não conseguiu perceber como é que o pode fazer e continua à deriva, assente em medidas vãs... pequenos retalhos que vão surgindo para tapar mais este buraco, puxando as linhas e juntando um tecido carcomido pelo tempo, desadequado à vida social de hoje, deste presente que não espera, e que com ele leva a infância, a juventude e a "adultez" de tantos indivíduos que não conseguiram perceber para quê a escola, para quê aquelas aprendizagens... que sentido maior elas acarretam... o que fazer num palco tão exigente, onde passam tanto e cada vez mais tempo... Motivar os nossos filhos a aprender num sistema que não reflecte os nossos ideais de aprendizagem é complicado, é difícil, é duro... competimos com um agente que não sabe acompanhar o ritmo da socialização a que é chamado a realizar... vemos o mundo avançar assente em pressupostos que antagonizam os métodos e formas em que o ensino se vai mantendo, cristalizado, parado... sufocando os que querem fazer mais, diferente... melhor! E aqui ressalvo os bravos professores, tão poucos, que se impõe a mudar dentro de um contexto hostil, de luta entre papéis, metas, currículos, exames, avaliações que se perdem também elas do verdadeiro sentido para o qual a escola serve, para o qual a escola deveria servir. Assisto revoltada à facilidade com que os diferentes atores educativos se desresponsabilizam, passando o testemunho da acção para o outro... sejam os pais, sejam os professores, sejam os alunos, seja a escola... seja a sociedade ou o tão proclamado e vulgarizado "sistema"... não fazemos todos parte deste todo? Não é nossa a responsabilidade de refletir, de delinear estratégias, de agir em conjunto, não contra A ou B, mas numa colaboração estreita, unidos na urgência de uma educação que permita construir, melhorar, entusiasmar, aprender, fazendo das nossas crianças e jovens, adultos felizes, completos, determinados nos seus trajetos, cooperativos... capazes de sonhar, entusiasmar nas suas atividades profissionais, nas suas casas, com os seus filhos... com as pessoas que compõem as suas redes de proximidade? 

Será que todos conseguimos pensar numa resposta imediata à pergunta "para quê a escola?", estaremos a conseguir fazer dela alguma coisa parecida com o que pensamos dela? Saberemos ao certo para quê que a queremos? Que papel têm as nossas aprendizagens? Que aprendizagens queremos hoje, e amanhã?