quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

A sentir o efeito atroz do tempo

Ainda a tentar perceber se o silêncio que tem inundado os meus dias é resposta à dor que transbordou todos os limites do que sou... oscilo entre impressões soltas e imprecisas do que por aqui se passa... será que me tornei num "sem alma"? Demasiado espaço aqui dentro, demasiado silêncio... para onde terei fugido? Não sei se gosto da sensação de 'auto abandono' que me faço sentir quando me oiço e me perco embebida neste eco...só sei que preciso de sentir e de ouvir o que por aqui se tem silenciado.

Um ano passado de um adeus que foi tão sofrido, vejo que hoje se misturam emoções, bloqueando a disponibilidade de uma racionalidade operativa, e permito que o tempo seja invadido pelas palavras que tenho vindo a sufocar...

Continuo a querer que elas surjam quase sem as invocar, mas sinto-as presas e perras... demasiada humidade e frio, ou talvez estejam de birra comigo? É verdade que as calei, que as guardei em lugar distante, numa gaveta escura, cuja chave dei a engolir a um peixe cor-de-laranja, habitante sem idade, de um lago esverdeado pelo tempo. Não queria ouvir o que tinham para me dizer, sabia que me fariam sentir... e estava dorida de sentir tanto! Sabiam, estas mesmas palavras que agora me fugiam, que não tinham conseguido ser suficientes para dar voz ao medo, à angústia e à dor que descobriu destino certo de lá para cá... lutaram em conflito entre a gratidão pelas vidas que fugiram por breves instantes, mas que permaneceram em mim e comigo, e o sufoco e sofrimento que brotou naquele adeus... no momento em que, impotente, só pude assistir à sua árdua escalada ao cume mais alto, sabendo que não iria regressar... com tanto ainda por ser, por viver, por sentir... por dar e por amar... talvez!

Tinha mergulhado na rotina segura de um dia depois do outro, tentando que vida me recordasse onde guardava a magia que já tinha sentido um dia, quando me era permitido olhar para a frente sem medo de chegar ao fim do que via...

A minha luta com as palavras continua e de cada vez que me vencem levam para o mesmo lugar distante o meu pensamento, deixando-me novamente a sós com o vazio que me tem invadido. Escrevo, apago, volto a trás... procuro sentir cada palavra que se junta, procuro que o que sinto se envolva intimamente com cada letra que escolho para arrumar o que me assalta de forma atrapalhada.

O silêncio a que condenei o meu coração, esperando conseguir sobreviver a tempos tão difíceis, não me permitia recuperar o seu batimento, a sensação era estranha... como se alguma coisa tivesse levado para fora de mim mesma aquela pessoa que conhecia tão bem. Até aqui, sabia de cor cada emoção, cada sorriso, cada lágrima, cada transpirar de mãos, todos os receios, todos os sonhos. Agora procurava cá dentro cada uma dessas referências e o mal dito eco enchia cada recanto... nem o peixe cor-de-laranja, guarda fiel da minha chave, habitava o lago esverdeado... não havia nada nem ninguém ali. Porquê?