segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Ser Doutoranda em Sociologia, em Portugal Dez.2016

Escrevo sem uma cadência lógica entre este desabafo e o último, porque as questões que me invadem hoje são diferentes das que me acompanharam no último dia em que me permiti este tempo para pensar em voz alta, no silêncio das minhas palavras... levadas para lá da minha janela e da minha secretária, através da magia das redes sociais, menos expressivas quando assumem esta forma... mas gosto mais assim. É como se conseguisse, ao mesmo tempo que partilho o que me vai na alma,  controlar com o botão de volume o tão longe que chegam estes desabafos... Enfim, talvez assim o seja, ou quem sabe não passe apenas da minha percepção.
Acabo de passar algumas das minhas horas deste dia a traduzir um documento escrito em Inglês, que encontrei no meio de uma pesquisa multidirecionada, e que apresenta contributos importantes para o meu trabalho. É "gira" a sensação de resgate à unicidade do nosso pensamento, quando nos debruçamos sobre um tema através dos mais variados suportes e nos damos conta de que o que pensámos, o que escrevemos, aquilo que estamos a pensar e a escrever neste preciso momento, já outros pensaram, já outros se anteciparam a escrever, aproximando-se, mais rápido do que eu, da concretização dos impactos que essa descoberta e que essas ideias terão para um melhor entendimento da nossa realidade social. Creio que fará parte dos inúmeros desafios que assaltam os investigadores, os indivíduos dedicados à produção de conhecimento sobre o "real"...
Hoje escrevo, porque há dias em que o vazio e a solidão desta etapa da minha vida, deste meu caminho, me conseguem desconcertar... e o pior é quando sinto que os dias se vão juntando, entrando num jogo de cumulativadade desordenada, levando o ânimo, a auto-confiança... a certeza de que é isto... e de que não seria mais nada, agora, neste momento.
Ser Doutoranda no meu país, significa abraçar um momento de ausência... significa ter de deixar de trabalhar, porque não se compatibiliza o trabalho, a família e a exigência de um projeto de investigação... significa percorrer um primeiro ano, mais ou menos, acompanhado, integrado numa turma, seguido dos restantes, em suspenso, vazio, onde és convidado a voar sozinho, apenas com o azimute da meta e algumas direções pontuais nos portos de abrigo... esperando que nesse isolamento atroz, angustiante, sejas capaz de fazer o teu caminho.
O desafio ganha tamanho, enforma-se enquanto tempestade em alto mar, e à medida em que o tempo passa, passando também sobre ele o tempo em que da minha identidade fazia parte um trabalho, pessoas para além das minhas, universos diferentes e para além da minha casa, da minha secretária, do meu computador, dos meus milhares de papeis e de livros, passando agora a fazer parte dela, ou daquilo que dela resta, um tempo ocupado e desenhado pelas minhas tarefas recém conquistadas de doméstica (se não se ganha não se gasta)... de mãe a tempo inteiro (partilhando com a escola essa missão). Sei que são igualmente grandes os meus desafios, ou maiores do que ainda consigo percepcionar hoje, mas a verdade é que me vou sentindo mais pequenina... quase insignificante... Sim, eu sei, estou a fazer um Doutoramento... e então? O que significa isso desprendido de todo o resto? Será que tem realmente algum valor este caminho para onde rumo, investindo o meu tempo, hipotecando a minha identidade? Há dias, como este, em que me questiono... e depois? Como será? E até lá? Padeço de anomia aguda... e vou oscilando entre momentos de entrega a esta doença e outros de "vamos lá, temos uma batalha pela frente que só a podemos vencer lutando", entre o aqui e o ali que pretendo alcançar, confesso que vou ficando cansada.
Em Portugal a FCT permite aos Doutorandos a simpática candidatura a bolsas de investigação. Assim o fiz, afinal de contas deixar de trabalhar para estudar tem de permitir a uma mulher adulta, e mãe de dois filhos, continuar a viver...seria bom que assim fosse. A realidade... é bem mais curiosa, o que nos deverá fazer pensar, uma vez mais, o lugar que verdadeiramente ocupa a qualificação neste pequeno país com a mania das grandezas... (parte da UE, desenvolvido... certo). Candidatura feita em Julho de 2016, resultados esperados em Outubro... e adiados para Fevereiro do ano 2017. Até lá? Não sei nada, apenas que estou sozinha, e que todos os dias oscilo entre a casa, os meninos e o que tenho para ler, para pesquisar... com pausas inventadas, outras que interrompem os ritmos de entusiasmo da pesquisa e das leituras... sentindo-me demasiado pequena para voar tanto tempo sozinha.
De tudo o que me leva a desmotivação é esta sensação de isolamento atroz que mais me corrói... se somos investigadores porque não temos uma equipa, um gabinete, um ordenado base? Porque não somos empregados enquanto tal? Assim, sou eu, mulher, mãe e doutoranda de sociologia em Portugal.