Entre um inspirar e um expirar profundo, tento soltar o grito, desamarrar o nó que a dor trouxe para morar cá dentro, bem cá dentro naquele lugar onde insistem morar as emoções... sem olhar para a frente, tento concentrar-me no momento, porque se podemos viver "1 dia de cada vez", para quê ambicionarmos o sonho?
Sentindo-me como se estivesse a fazer parte de uma expedição para a escalada à mais alta montanha, acompanhando apenas a dor de quem tem pela frente o esforço de se fazer sobreviver, sinto a impotência de quem apenas pode garantir que se vai mantendo perto, fazendo uma segurança tosca, receosa, hesitante... que a todo o instante preciso de afinar, para que possa ir aguentando. Digo repetidamente que "Tens de aguentar firme, subir com determinação, superar as vontades do corpo, deixar que cabeça comande", mas no fundo a revolta vai consumindo o brilho do meu olhar, levando com ela a motivação que devia ser a minha missão, a minha bandeira... o pouco daquilo que posso dar... fraquejo e as lágrimas caem, silenciosamente, acompanhadas de pedidos confusos, dualidades humanas e aquela pergunta que toca bem lá no fundo e que faz desabar as minhas certezas e o meu sorriso..."Para quê?" Quem sou eu para alimentar esperanças, comandar operações, conduzir passos numa escalada da qual desconheço a força que é preciso para não desistir? Como é que se pede para lutar quando se sabe que aquele esforço não nos levará a lado nenhum?"
Somos gente, bichos que lutam pela sobrevivência... está no nosso mais íntimo desígnio... no entanto, enfrentamos o pior de todos os Terroristas neste século, e não, eles não vêm de longe, de fora... não têm raça, nem religião... não os vemos, não os ouvimos, apenas os sentimos quando já tomaram conta da nossa vontade, do corpo que ainda somos. Sem armas, sem soldados, sem ninguém para além de nós próprios, assistimos ao definhar da nossa existência, vemos surgir espectros de gente, sombras esqueléticas, de olhares vazios e encovados, corpos e almas doridos, em agonia... lutando por esboçar um sorriso, por mostrar que estão a reagir... acreditando que no final serão capazes de ser os heróis desta batalha. Não é justo!!! Não há honra neste inimigo que todos temos, e que ninguém sabe quando surgirá. Todos conhecem as suas vítimas, todos têm perto de si uma história de luta, de dor, de sofrimento...sabemos que é um terrorista sem cara, com tantos nomes, com um apetite voraz da nossa humanidade, consequência dos rumos que fomos percorrendo, entre o esquecimento do que devíamos ser e não somos. Contudo, apesar de sabermos, e ainda que assombrados pelo medo de sermos atacados, esquecemo-nos de viver, ou então, para "viver" perdemo-nos da nossa finitude e fragilidade, andando sem rumo.. emaranhando-nos em nós apertados de orgulhos, de rancores, de mágoas, de palavras que ouvimos, e das que não dissemos, de gestos que guardamos, e dos que não oferecemos... de olhares de soslaio, de palavras vazias, de toques e relações supérfluos... abraços perdidos na solidão... vidas ocas... desperdiçando os dias, as horas, os minutos... sem correr atrás da vida que temos, enquanto a temos... com as pessoas que amamos, com as pessoas que aprendemos a amar, sempre que nos detivermos, pararmos, olharmos, escutarmos, falarmos, partilharmos... procurando ser, amar, ser mensageiros de paz e de amor... porque se somos pessoas, somos todos capazes do amor, somos todos capazes do erro, do perdão, de sorrir, de abraçar, de chorar juntos, de construir tanto... pelo amor, pela vida... capaz de nos elevar, lembrando-nos o que devemos esperar quando nos decidimos realmente a viver.
No confronto com o olhar da morte, aquele com que ficamos quando nos aproximamos dela desta forma lenta, consciente e dolorosa, tento não ceder ao medo, contrario este sentimento que me rouba a alegria de viver, por chegar a considerar que afinal não vale a pena sorrir, sonhar, amar... porque no fim não somos nada, levam-nos tudo... Não é fácil recuperar a energia que devolve a vida ao ser que ainda sou... não compreendo a finitude, não sei como lidar com ela, só sei que é ela me conduz a viver cada dia como dádiva única, como oferenda preciosa que preciso de contemplar sem perder tempo, registando cada pormenor, cada cheiro, cada sabor, cada paisagem, cada brisa, cada raio quente de sol... cada canto, cada parte de mim que amo, que vejo nascer, crescer... que me viram nascer, crescer... que me ensinaram o amor e com ele o medo de perder! Vem daqui a necessidade de não parar, de estar sempre de um lado para o outro a fazer acontecer a vida, enquanto ninguém ma vem tirar...
Custa-me a distância a que nos colocamos da nossa própria existência, quando não incluímos a morte nos nossos dias. Fugimos da dor alheia, porque é mais fácil para nós não a sentirmos como nossa... enquanto assim puder ser... "toda a gente compreenderá que não há nada mais que se possa fazer"... Não falamos da morte porque nos dói, bem no fundo da nossa existência, mexendo com tudo o que temos cá dentro, lembrando a cada pequeno pedaço da nossa existência que somos finitos, que um dia ela também será o fim do nosso caminho. Então para que é que caminhamos? Como podemos caminhar sem saber para o que é que nos preparamos? Como podemos manter a meta longe dos nossos mapas pessoais, dos trilhos que traçamos diariamente, sem que pelo caminho nos percamos, nos afastemos do que somos? A morte faz parte disto que somos... mas ninguém nos ensina a senti-la assim... ninguém nos preparou para o sofrimento, para a dor... ninguém nos ensina a morrer, ninguém nos ensina a dizer adeus aos que amamos... porquê? Não somos pessoas? Não é a morte a maior certeza da vida? Então? Porque é que insistimos em andar distraídos?
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