segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Ser Doutoranda em Sociologia, em Portugal Dez.2016

Escrevo sem uma cadência lógica entre este desabafo e o último, porque as questões que me invadem hoje são diferentes das que me acompanharam no último dia em que me permiti este tempo para pensar em voz alta, no silêncio das minhas palavras... levadas para lá da minha janela e da minha secretária, através da magia das redes sociais, menos expressivas quando assumem esta forma... mas gosto mais assim. É como se conseguisse, ao mesmo tempo que partilho o que me vai na alma,  controlar com o botão de volume o tão longe que chegam estes desabafos... Enfim, talvez assim o seja, ou quem sabe não passe apenas da minha percepção.
Acabo de passar algumas das minhas horas deste dia a traduzir um documento escrito em Inglês, que encontrei no meio de uma pesquisa multidirecionada, e que apresenta contributos importantes para o meu trabalho. É "gira" a sensação de resgate à unicidade do nosso pensamento, quando nos debruçamos sobre um tema através dos mais variados suportes e nos damos conta de que o que pensámos, o que escrevemos, aquilo que estamos a pensar e a escrever neste preciso momento, já outros pensaram, já outros se anteciparam a escrever, aproximando-se, mais rápido do que eu, da concretização dos impactos que essa descoberta e que essas ideias terão para um melhor entendimento da nossa realidade social. Creio que fará parte dos inúmeros desafios que assaltam os investigadores, os indivíduos dedicados à produção de conhecimento sobre o "real"...
Hoje escrevo, porque há dias em que o vazio e a solidão desta etapa da minha vida, deste meu caminho, me conseguem desconcertar... e o pior é quando sinto que os dias se vão juntando, entrando num jogo de cumulativadade desordenada, levando o ânimo, a auto-confiança... a certeza de que é isto... e de que não seria mais nada, agora, neste momento.
Ser Doutoranda no meu país, significa abraçar um momento de ausência... significa ter de deixar de trabalhar, porque não se compatibiliza o trabalho, a família e a exigência de um projeto de investigação... significa percorrer um primeiro ano, mais ou menos, acompanhado, integrado numa turma, seguido dos restantes, em suspenso, vazio, onde és convidado a voar sozinho, apenas com o azimute da meta e algumas direções pontuais nos portos de abrigo... esperando que nesse isolamento atroz, angustiante, sejas capaz de fazer o teu caminho.
O desafio ganha tamanho, enforma-se enquanto tempestade em alto mar, e à medida em que o tempo passa, passando também sobre ele o tempo em que da minha identidade fazia parte um trabalho, pessoas para além das minhas, universos diferentes e para além da minha casa, da minha secretária, do meu computador, dos meus milhares de papeis e de livros, passando agora a fazer parte dela, ou daquilo que dela resta, um tempo ocupado e desenhado pelas minhas tarefas recém conquistadas de doméstica (se não se ganha não se gasta)... de mãe a tempo inteiro (partilhando com a escola essa missão). Sei que são igualmente grandes os meus desafios, ou maiores do que ainda consigo percepcionar hoje, mas a verdade é que me vou sentindo mais pequenina... quase insignificante... Sim, eu sei, estou a fazer um Doutoramento... e então? O que significa isso desprendido de todo o resto? Será que tem realmente algum valor este caminho para onde rumo, investindo o meu tempo, hipotecando a minha identidade? Há dias, como este, em que me questiono... e depois? Como será? E até lá? Padeço de anomia aguda... e vou oscilando entre momentos de entrega a esta doença e outros de "vamos lá, temos uma batalha pela frente que só a podemos vencer lutando", entre o aqui e o ali que pretendo alcançar, confesso que vou ficando cansada.
Em Portugal a FCT permite aos Doutorandos a simpática candidatura a bolsas de investigação. Assim o fiz, afinal de contas deixar de trabalhar para estudar tem de permitir a uma mulher adulta, e mãe de dois filhos, continuar a viver...seria bom que assim fosse. A realidade... é bem mais curiosa, o que nos deverá fazer pensar, uma vez mais, o lugar que verdadeiramente ocupa a qualificação neste pequeno país com a mania das grandezas... (parte da UE, desenvolvido... certo). Candidatura feita em Julho de 2016, resultados esperados em Outubro... e adiados para Fevereiro do ano 2017. Até lá? Não sei nada, apenas que estou sozinha, e que todos os dias oscilo entre a casa, os meninos e o que tenho para ler, para pesquisar... com pausas inventadas, outras que interrompem os ritmos de entusiasmo da pesquisa e das leituras... sentindo-me demasiado pequena para voar tanto tempo sozinha.
De tudo o que me leva a desmotivação é esta sensação de isolamento atroz que mais me corrói... se somos investigadores porque não temos uma equipa, um gabinete, um ordenado base? Porque não somos empregados enquanto tal? Assim, sou eu, mulher, mãe e doutoranda de sociologia em Portugal.


quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Ser mãe de dois filhos e Doutoranda em Sociologia, em Portugal em 2016

Mulher, 35 anos, mãe de dois filhos (17 e 11 anos), socióloga por paixão e determinação, desde os 23 anos, Doutoranda em Sociologia desde 2015/2016.

A escolha da Sociologia aconteceu ainda durante o percurso do ensino secundário, depois de um primeiro contacto com a disciplina que era ministrada na área de Humanidades, pode-se dizer que foi amor à primeira vista. Estudar a sociedade, compreender os meandros dos seus rumos, as interações sociais, a génese do ser social e a sua complexidade plasmada em tantas particularidades e regularidades. Estava decidido o meu rumo, foi traçado um trajeto que até então se apresentava vago, sem direções específicas, apenas a noção vaga de que ingressar no ensino superior seria um passo normal e não questionado, como não foi o meu percurso escolar, apesar dos tantos e imediatos encontros com a desmotivação, e com a certeza de que o mundo lá fora era bem mais importante e entusiasmante do que a realidade que nos era apresentada dentro dos muros da escola... daquela escola que eu conhecia.
Hoje, olhando para trás é mais fácil questionar-me sobre a "minha escola", como é que ela me permitiu que durante 12 anos eu não soubesse ao certo o que é que eu estava ali a fazer, o que é que era suposto eu saber de mim, e do meu caminho através daquelas aprendizagens? Se ela não me deu sentido para aprender, como é que eu poderia saber que sentido dar ao que tinha de mostrar que tinha aprendido... tudo se resumiria à velha questão... Para quê? Não deveria esta busca de sentido para as nossas aprendizagens ser um projeto integrado na realidade escolar? 
Os anos de escola passaram-se entre as notas, os trabalhos, a atenção pedida, aquela que aprendíamos a disfarçar quando não tínhamos para oferecer... o confronto com o que éramos ou não capazes de fazer, de aprender, de mostrar que sabíamos... 
Dos professores, alguns permanecem intactos na memória, como se o tempo não tivesse passado, corroborando a extrema relevância do seu papel neste processo, uns motivando, entusiasmando, partilhando a magia da curiosidade na aprendizagem, trazendo um sorriso ténue e reconhecido quando os nomes e as aulas despontam entre alguma névoa invocada pela distância. Outros marcaram relações de atrito, conflitos armados em que se aprendeu a ser, lutando pelo que se era e pelo que tantas vezes quiseram que não fossemos de nós. Outros ainda perderam-se na viagem do tempo, não se guardam desses nem nomes, nem imagens, nem conteúdos das aulas... talvez a sua presença tivesse sido esquecida mesmo ainda antes de o ser... e com ela toda a aprendizagem que deveriam ter trazido com eles, para o que fui e sou. 
Lugar de relações... lugar de emoções, transformadas em sentimentos (que percebemos tão pouco, aprendizagem não concretizada que traz tantos problemas), de descobertas, de conquistas, de perdas, de lutas e de amizades que duram para o sempre que não chegaremos a ser... os colegas, os amigos... Como é que "fazer parte" pode fazer de facto tanta diferença no papel que passamos a desempenhar neste espaço, enquanto aprendentes. Se a fragilidade já for connosco, fica muito difícil lidar com tantas provas diárias... temos de nos tornar fortes, temos de nos tornar intocáveis. Num palco onde coexistem tantas diferenças, as relações de poder assumem as formas que todos conhecemos e reconhecemos noutros palcos e noutros contextos sociais... crianças, jovens, adultos... pessoas! É isso que somos desde a escola até aqui. E no meio de todas estas relações deverá existir um propósito comum, ou a partilha de vários propósitos... que a todos chama a estar a li, mais do que a simples lei que nos obriga, e que por isso nos inibe de pensar, de reflectir, de tomar parte, de o assumirmos em consciência... "estou aqui porque". Penso inúmeras vezes o quão diferente é a realidade da aprendizagem entre "os que querem e não podem" e "os que podem e que não sabem se querem... talvez não"... não deveríamos ter todos, afinal um fim, um objetivo último, um sentido? O que é que não temos conseguido fazer nesta matéria? 
Hoje sou mãe e em 17 anos não vejo a escola mudar, apesar de acompanhar as alterações que se vão manifestando desordenadamente, ausentes de fio condutor, ao sabor deste governo, daquele ministro, desta ideia, da sua antítese no momento imediatamente a seguir, onde as preocupações se sucedem em estudos, relatórios, pareceres de especialistas, conclusões dos diferentes atores, mas que, na sua essência não transformam este suposto lugar de aprendizagem numa etapa embebida de sentidos. Vejo-me dentro de um sistema com o qual continuo a não encontrar eco, correspondência de sentidos, um sistema gasto, vazio, que apesar de saber que está na hora de mudar, ainda não conseguiu perceber como é que o pode fazer e continua à deriva, assente em medidas vãs... pequenos retalhos que vão surgindo para tapar mais este buraco, puxando as linhas e juntando um tecido carcomido pelo tempo, desadequado à vida social de hoje, deste presente que não espera, e que com ele leva a infância, a juventude e a "adultez" de tantos indivíduos que não conseguiram perceber para quê a escola, para quê aquelas aprendizagens... que sentido maior elas acarretam... o que fazer num palco tão exigente, onde passam tanto e cada vez mais tempo... Motivar os nossos filhos a aprender num sistema que não reflecte os nossos ideais de aprendizagem é complicado, é difícil, é duro... competimos com um agente que não sabe acompanhar o ritmo da socialização a que é chamado a realizar... vemos o mundo avançar assente em pressupostos que antagonizam os métodos e formas em que o ensino se vai mantendo, cristalizado, parado... sufocando os que querem fazer mais, diferente... melhor! E aqui ressalvo os bravos professores, tão poucos, que se impõe a mudar dentro de um contexto hostil, de luta entre papéis, metas, currículos, exames, avaliações que se perdem também elas do verdadeiro sentido para o qual a escola serve, para o qual a escola deveria servir. Assisto revoltada à facilidade com que os diferentes atores educativos se desresponsabilizam, passando o testemunho da acção para o outro... sejam os pais, sejam os professores, sejam os alunos, seja a escola... seja a sociedade ou o tão proclamado e vulgarizado "sistema"... não fazemos todos parte deste todo? Não é nossa a responsabilidade de refletir, de delinear estratégias, de agir em conjunto, não contra A ou B, mas numa colaboração estreita, unidos na urgência de uma educação que permita construir, melhorar, entusiasmar, aprender, fazendo das nossas crianças e jovens, adultos felizes, completos, determinados nos seus trajetos, cooperativos... capazes de sonhar, entusiasmar nas suas atividades profissionais, nas suas casas, com os seus filhos... com as pessoas que compõem as suas redes de proximidade? 

Será que todos conseguimos pensar numa resposta imediata à pergunta "para quê a escola?", estaremos a conseguir fazer dela alguma coisa parecida com o que pensamos dela? Saberemos ao certo para quê que a queremos? Que papel têm as nossas aprendizagens? Que aprendizagens queremos hoje, e amanhã? 











quinta-feira, 18 de agosto de 2016

A distância a que nos colocamos da nossa existência quando fugimos da morte...

Entre um inspirar e um expirar profundo, tento soltar o grito, desamarrar o nó que a dor trouxe para morar cá dentro, bem cá dentro naquele lugar onde insistem morar as emoções... sem olhar para a frente, tento concentrar-me no momento, porque se podemos viver "1 dia de cada vez", para quê ambicionarmos o sonho?
Sentindo-me como se estivesse a fazer parte de uma expedição para a escalada à mais alta montanha, acompanhando apenas a dor de quem tem pela frente o esforço de se fazer sobreviver, sinto a impotência de quem apenas pode garantir que se vai mantendo perto, fazendo uma segurança tosca, receosa, hesitante... que a todo o instante preciso de afinar, para que possa ir aguentando. Digo repetidamente que "Tens de aguentar firme, subir com determinação, superar as vontades do corpo, deixar que cabeça comande", mas no fundo a revolta vai consumindo o brilho do meu olhar, levando com ela a motivação que devia ser a minha missão, a minha bandeira... o pouco daquilo que posso dar... fraquejo e as lágrimas caem, silenciosamente, acompanhadas de pedidos confusos, dualidades humanas e aquela pergunta que toca bem lá no fundo e que faz desabar as minhas certezas e o meu sorriso..."Para quê?" Quem sou eu para alimentar esperanças, comandar operações, conduzir passos numa escalada da qual desconheço a força que é preciso para não desistir? Como é que se pede para lutar quando se sabe que aquele esforço não nos levará a lado nenhum?"
Somos gente, bichos que lutam pela sobrevivência... está no nosso mais íntimo desígnio... no entanto, enfrentamos o pior de todos os Terroristas neste século, e não, eles não vêm de longe, de fora... não têm raça, nem religião... não os vemos, não os ouvimos, apenas os sentimos quando já tomaram conta da nossa vontade, do corpo que ainda somos. Sem armas, sem soldados, sem ninguém para além de nós próprios, assistimos ao definhar da nossa existência, vemos surgir espectros de gente, sombras esqueléticas, de olhares vazios e encovados, corpos e almas doridos, em agonia... lutando por esboçar um sorriso, por mostrar que estão a reagir... acreditando que no final serão capazes de ser os heróis desta batalha. Não é justo!!! Não há honra neste inimigo que todos temos, e que ninguém sabe quando surgirá. Todos conhecem as suas vítimas, todos têm perto de si uma história de luta, de dor, de sofrimento...sabemos que é um terrorista sem cara, com tantos nomes, com um apetite voraz da nossa humanidade, consequência dos rumos que fomos percorrendo, entre o esquecimento do que devíamos ser e não somos. Contudo, apesar de sabermos, e ainda que assombrados pelo medo de sermos atacados, esquecemo-nos de viver, ou então, para "viver" perdemo-nos da nossa finitude e fragilidade, andando sem rumo.. emaranhando-nos em nós apertados de orgulhos, de rancores, de mágoas, de palavras que ouvimos, e das que não dissemos, de gestos que guardamos, e dos que não oferecemos... de olhares de soslaio, de palavras vazias, de toques e relações supérfluos... abraços perdidos na solidão... vidas ocas... desperdiçando os dias, as horas, os minutos... sem correr atrás da vida que temos, enquanto a temos... com as pessoas que amamos, com as pessoas que aprendemos a amar, sempre que nos detivermos, pararmos, olharmos, escutarmos, falarmos, partilharmos... procurando ser, amar, ser mensageiros de paz e de amor... porque se somos pessoas, somos todos capazes do amor, somos todos capazes do erro, do perdão, de sorrir, de abraçar, de chorar juntos, de construir tanto... pelo amor, pela vida... capaz de nos elevar, lembrando-nos o que devemos esperar quando nos decidimos realmente a viver.
No confronto com o olhar da morte, aquele com que ficamos quando nos aproximamos dela desta forma lenta, consciente e dolorosa, tento não ceder ao medo, contrario este sentimento que me rouba a alegria de viver, por chegar a considerar que afinal não vale a pena sorrir, sonhar, amar... porque no fim não somos nada, levam-nos tudo... Não é fácil recuperar a energia que devolve a vida ao ser que ainda sou... não compreendo a finitude, não sei como lidar com ela, só sei que é ela me conduz a viver cada dia como dádiva única, como oferenda preciosa que preciso de contemplar sem perder tempo, registando cada pormenor, cada cheiro, cada sabor, cada paisagem, cada brisa, cada raio quente de sol... cada canto, cada parte de mim que amo, que vejo nascer, crescer... que me viram nascer, crescer... que me ensinaram o amor e com ele o medo de perder! Vem daqui a necessidade de não parar, de estar sempre de um lado para o outro a fazer acontecer a vida, enquanto ninguém ma vem tirar...
Custa-me a distância a que nos colocamos da nossa própria existência, quando não incluímos a morte nos nossos dias. Fugimos da dor alheia, porque é mais fácil para nós não a sentirmos como nossa... enquanto assim puder ser... "toda a gente compreenderá que não há nada mais que se possa fazer"... Não falamos da morte porque nos dói, bem no fundo da nossa existência, mexendo com tudo o que temos cá dentro, lembrando a cada pequeno pedaço da nossa existência que somos finitos, que um dia ela também será o fim do nosso caminho. Então para que é que caminhamos? Como podemos caminhar sem saber para o que é que nos preparamos? Como podemos manter a meta longe dos nossos mapas pessoais, dos trilhos que traçamos diariamente, sem que pelo caminho nos percamos, nos afastemos do que somos? A morte faz parte disto que somos... mas ninguém nos ensina a senti-la assim... ninguém nos preparou para o sofrimento, para a dor... ninguém nos ensina a morrer, ninguém nos ensina a dizer adeus aos que amamos... porquê? Não somos pessoas? Não é a morte a maior certeza da vida? Então? Porque é que insistimos em andar distraídos?


terça-feira, 2 de agosto de 2016

Sendas que percorremos distraídos

Atenta à passagem do tempo, atenta às pessoas... são demasiadas as vezes em que me é possível aferir que andamos todos demasiados distraídos daquilo que nos deveria mover todos os dias, dos azimutes que deviam guiar os nossos passos, alinhando as nossas palavras, direcionando os nossos gestos. 
É especialmente nessas alturas em que a questão "que sentido tem a nossa vida?", que penso que todos nós partilhamos desde tenra idade, (apesar de mantermos com ela uma relação oscilante, que ora lhe dá voz e nos faz inquietar por respostas, ora nos leva a silencia-la para simplesmente seguir os passos dos caminhos já traçados, sem pensar demasiado), ganha sentido e urgência.
Gosto de pensar que com o passar do tempo, a idade nos oferece a possibilidade de um olhar macro sobre a vida, e que da infância herdámos a capacidade de parar e olhar mais amiúde, como se tivéssemos uma lupa... detendo-nos sobre os pormenores embebidos de complexidade que a mesma vida nos oferece, se soubermos ser atentos. No entanto, é verdade que esta "herança" exige que saibamos como lidar com um dia-a-dia impregnado de um olhar de cima, semelhante ao que temos quando viajamos num avião a milhares de pés do chão em que vivemos, ao mesmo tempo que, nessa imensidão de vida que abarcamos com o olhar, nos ocupamos apenas com a nossa... centrando-nos na nossa correria, nas nossas milhares de coisas (e meia) para fazer, com o pouco tempo que temos para realizar tanto... para corresponder a tantas exigências, que tantas vezes não são mais do que imposições nossas, não correspondendo em nada ao que é essencial, aquilo que parece responder à questão tão primária da nossa existência... "que sentido tem a nossa vida?". 
A passagem da infância para a fase adulta é impregnada por estas questões, abalando as nossas certezas, conduzindo-nos em buscas incessantes por respostas, por experiências reveladoras de trilhos a percorrer em direção a nós próprios... contudo, parece que nos tornamos adultos quando deixamos de dar expressão a essas perguntas que nos guiaram até ali, que ilustraram a nossa sede de saber mais, de fazer mais, de aproveitar os dias,  as pessoas... como se fossem únicos, correndo o risco de acabar no instante seguinte... crescemos quando enfim nos deixamos distrair do propósito da nossa existência? Acredito que somos unos, ou seja, que apesar de todas as mudanças a que somos sujeitos ao longo da nossa linha de vida, não deixamos de ser a génese daquilo que nos levou a ser, então sou assaltada por outra questão... será que à medida que o tempo passa nos esquecemos de viver? Será que a ausência de respostas, nos conduz somente a um vaguear desinteressado e distraído? Será esse o segredo? Mas então... para que serviu viver afinal? 
Todos os dias são demasiadas as histórias que se deixam ecoar entre ruas, cafés, corredores de lugares perdidos na azáfama desta "vida", nelas oiço as opiniões que divergem, as relações que se quebram, os caminhos que se separam, as raivas e vinganças que se escondem atrás de olhares baços e de palavras ásperas... todas cujos  motivos e razões justificam as atitudes, o desprezo, a mentira, a cobardia e desinteresse pela vida alheia...verdadeiras "guerras" travadas diariamente, usando palavras, actos, o olhar, a frieza, a crueldade...  . No fim penso se o prémio auferido depois de cada vitória conquistada nestas batalhas repletas de ira e de intolerância consegue responder à pergunta que aqui já repeti duas vezes... será que encontramos as nossas respostas quando destruímos, ao invés de construirmos... quando tentamos que o outro seja reflexo do que queremos que ele seja, condenando as diferenças, julgando as opções... desrespeitando as liberdades, (não que com tudo isto nos esqueçamos de defender as nossas liberdades... mas apenas isso... conquistando caminho, não ficando detidos nas pedras que vão desviando os nossos passos, lembrando-nos de que só se faz caminho... caminhando).
O dia começa cedo, acordamos e a correr despachamo-nos... no mesmo ritmo com que começamos mais um dia, saímos de casa e rumamos separadamente para os nossos lugares, tão distintos dos lugares onde nos encontrámos um dia, e onde nos permitimos olhar com mais atenção, admirando, sentindo o coração a palpitar, as mãos a transpirar e o corpo a ceder ao desejo de a partir dali ficarmos juntos... para sempre! Pelo caminho esquecem-nos de sorrir, de contemplar o nascer de mais um dia, de olhar para fora de nós, para os outros que também somos, ouvindo, falando... vivendo. Pelo caminho ficam as horas em que podíamos ter sido, mas não fomos, porque tivemos de o ser com outros que também somos... no entanto, nesses outros que preenchem as horas do tempo que não temos, não deixamos mais do que um ser vazio, apressado, demasiado ocupado com as tantas tarefas que se atrasam e se fazem acumular de um dia para o outro... roubando mais uma vez o sorriso, a capacidade de ouvir, de falar... de ser... de viver! 
Um dia depois do outro, vamos repetindo as rotinas, vamos correndo em passos acelerados, cansados, exaustos, gastos... vazios... distraídos uns dos outros. Mais um por-do-sol que não conseguimos ver, porque há tanto que fazer hoje, "amanhã quem sabe","no fim-de-semana talvez"... noutra altura porque agora é complicado. 
Aos dias sucedem-se os meses, os anos... as pessoas que passavam por nós deixaram de passar... apareceram outras. Sem darmos conta, há uma altura em que, ajudados por alguma memória guardada, nos lembramos de quem já não vemos há algum tempo... "o que será feito?"... não sabemos, poucos são os que sabem. Impressionante como é que tão mais próximos através de tantas formas, nos tornámos cada vez mais distantes de quem tínhamos tão perto. Antagonismos aos quais urge olhar com mais atenção, devolvendo-nos a capacidade de viver. Somos seres sociais, não nascemos sozinhos, não vivemos sozinhos... precisamos uns dos outros para nos construirmos enquanto gente... e somos todos gente... quando é que nos esquecemos disso? Quando é que aconteceu olharmos uns para os outros sem que nos conseguíssemos rever?
Acredito que a humanidade é a nossa identidade maior (aqui apraz-me ser adulto e olhar de forma macro para a nossa existência), e que todos devíamos partilhar desse bem maior, contribuindo para ele, como herança coletiva, em que a ninguém devia caber a melhor ou a pior parte... apenas aquela que seria necessária para que vivêssemos em harmonia, respeitando homens, mulheres, crianças, idosos, animais, a natureza... numa fórmula que considerasse o holismo nesta mesma relação macro do mundo... vivendo e deixando viver, amando e cuidando para que todos pudéssemos experenciar o amor e a felicidade. Afinal de contas, para que seria então a vida se não tivesse ela mesma esse propósito? Conquistaremos sempre mais juntos do que fragmentados em culturas, etnias, sexos... contudo, para que esse dia chegue, precisamos de percorrer as sendas da nossa vida mais atentos... ao outro, ao nosso reflexo na sua vida... ao seu reflexo na nossa existência. Aceite o desafio, começaremos por contemplar o dia que nasce e que se recolhe, o meio que nos rodeia, as pessoas que connosco compõem a nossa vida, os sons, os aromas, a natureza que nos envolve e que partilha da nossa existência... agradecendo, sorrindo, deixando mais do que encontrámos, deixando melhor do que gostaríamos de ter encontrado... para os outros que, como nós, caminham em busca de um sentido, de um azimute. 

E as Sendas que percorremos distraídos tornar-se-ão na magia das respostas que procuramos... trazendo o tempo da vida à correria e azáfama desmedidas... então aí sim... saberemos porque é que vivemos.